[...] o relato do sonho não pode ser cortado de sua referência à atualidade psíquica do sonho. É por isso que, ao invés do termo comportamento de relato, talvez fosse preferível e mais correto falarmos de conduta de relato, porque o termo conduta tem a vantagem de realçar a conexão mais ou menos específica com o fato mental. [...] podemos dizer que o estudo psicológico de uma conduta de relato faz a conjunção de duas perspectivas epistemológicas distintas: a) a primeira perspectiva é a da “objetividade exterior”, em principio acessível a todos (como a objetividade do físico: o relato, como porção de linguagem e como texto, está presente; cada um não é somente seu autor, pode tomar conhecimento dele; b) a segunda é da “intersubjetividade”, isto é, a de uma comunicação realizada entre sujeitos dotados de vida mental e capazes de evocar, no outro, algo de seus conteúdos mentais (JAPIASSU, 1982, p. 107).
[...] A objetividade cientifica consiste, do ponto de vista dos sujeitos humanos que fazem a ciência, nessa intersubjetividade, em princípio, universal (admitida e controlada por todos). É justamente a necessidade da intersubjetividade universal que se faz sentir com o esforço de estabelecimento e constituição de um conhecimento cientifico. E é quando conseguimos definir uma identidade de relação intelectual entre todos os sujeitos humanos e o mesmo objeto, que podemos falar de objetividade cientifica. Por conseguinte, essa objetividade coincide necessariamente com a intersubjetividade universal da relação dos sujeitos com o objeto. E é por ser universal, que não podemos deixar de levar em consideração esta intersubjetividade para nos atermos somente ao lado ou ao conteúdo afetivo do objeto. A universalidade da intersubjetividade libera o dado (o conteúdo) de sua “subjetividade” para estabelecê-lo em sua positividade cientifica pela experiência direta de todos. É o que ocorre com a observação de um gesto ou de um comportamento, no sentido behaviorista. (JAPIASSU, 1982, p. 108).
A psicanálise veio mostrar que há outro tipo de intersubjetividade podendo subsistir aquém ou instaurar-se distintamente além desse estatuto universal de intersubjetividade. [...] é preciso que se reconheça que, a partir do momento em que determinado paciente relata seus sonhos ao seu analista, a intersubjetividade que entre ambos se estabelece não é idêntica àquela oriunda da observação feita pelos dois sobre sonho. Na verdade, somente o paciente vivenciou o sonho que ele relata. [...] Trata-se, no caso presente, de uma intersubjetividade particular, e não mais universal. E é este tipo de intersubjetividade que a epistemologia leva em conta para estudar psicologicamente as condutas de relato [...] dito isto, cremos poder chegar a uma primeira conclusão: não se pode mais negar que com Freud, tenha surgido um novo tipo de objetividade psicológica. [...] trata-se de uma objetividade que pressupõe objetividade particular (JAPIASSU, 1982, p. 108-109-111).
JAPIASSU, Hilton. Introdução á epistemologia da psicologia. Rio de Janeiro: Imago, 1982.
Parece encontrar grande aceitação, entre analistas e especialista em teoria psicanalítica, a tese de que a psicanálise nada tem a ver com a psicologia. Seriam tipos de conhecimentos incidindo sobre objetos diferentes e operando com metodologia diversa, diversos, por igual, sendo os fundamentos epistemológicos sobre os quais se apoiariam. Assim, por exemplo, a psicologia reivindicaria a condição de ciência, a condição que, por sua vez, a psicanálise descartaria, optando até por certa aproximação com a filosofia. O objeto da psicologia seria a consciência, agora, mais do que nunca, resgatada até pelos neurocientistas como R. Sperry. Quanto à psicanálise, seus procedimentos de pesquisa se centrariam na investigação do inconsciente. No que se refere à metodologia, a reivindicação da psicologia apontaria para o método experimental, enquanto a psicanálise optaria pelos procedimentos interpretativos. Quanto à fundamentação epistemológica, a psicologia a teria encontrado, predominantemente, no positivismo, com um enraizamento histórico em Hume, enquanto a psicanálise se apoiaria na hermenêutica, representada, inclusive, por P. Ricoeur.
(...)
Ricoeur, em seu texto “Le Conflit des Interpretations”, no capítulo dedicado ao estudo entre a hermenêutica e a psicanálise, afirma que, graças a Marx, Nietzsche e Freud, alargou o significado da dúvida que, em Descartes, era exercida com bastante eficácia em relação à própria consciência. Afinal, como observou Descartes, se eu duvido, eu penso, eu penso, e se eu penso, então existo. A existência, então, da consciência, ficava assegurada, em oposição à do mundo físico que, na verdade, se poderia revelar ilusória. Em função de sua transparência, por outro lado, a consciência poderia oferecer-se em condições privilegiadas para estudo. Pois, o que os três grandes mestre da suspeita fizeram foi mostrar que a consciência de modo algum escapa da dúvida. Também o conhecimento de que ela propicia dela mesma pode ser inteiramente falso. O recurso para o desmascaramento seria a reflexão crítica, graças à qual rejeita-se o que se propõe como evidência factual em favor do que se oculta, este possivelmente até insinuando pelo que se mostra. Bem examinado, o procedimento não era estranho aos que se propuseram em investigar o mundo físico. Também aqui, o que se descobriu foi o caráter falso do dado, impondo-se como melhor estratégia a busca do que se encobre. Talvez no processamento dessa mudança, a experiência dos fenômenos ilusórios tenha desempenhado papel relevante. A hipótese que proponho, sobretudo, privilegia a ilusão do movimento induzido que terá incentivado a passagem da concepção geocêntrica para a concepção heliocêntrica. Efetivamente, na ilusão mencionada, o que se percebe em movimento, revela-se destituído dele, enquanto o que se percebe em repouso mostra-se em movimento. A concepção geocêntrica teria sido produzida pela aceitação do dado ilusório, ou seja, o sol girando em torno da Terra. A dúvida sugerida pela experiência ilusória teria, então, conduzido à concepção oposta.
(...)
Pessoalmente creio que os trechos citados, de modo algum, excluem a mobilização do método de observação. Claro que o inconsciente não se apresenta diante de nós como se revela um fenômeno. De qualquer modo, as lacunas, as brechas, essa são observadas. E isso quer me parecer de extrema relevância para efeito de se conhecer o inconsciente. Como nesse particular assinala muito bem Narot, o trabalho essencial é o de escuta. Descarta-se qualquer contato físico, tanto quanto se exclui qualquer preocupação com a expressão gestual do analisando. “E por princípio: a transformação freudiana institui a exclusão do visível comportamental (ao qual a psiquiatria, a psicologia, a psicossociologia permaneciam ligadas) em favor do invisível, do fantasma e da palavra.” Tudo isso, entretanto, não implica redução da observação. Nesse sentido, então, não se mostra a psicanálise radicalmente afastada da psicologia. Quando muito se poderia dizer que a psicanálise privilegia um tipo de observação que se fundamenta na “escuta”, conseqüentemente ressaltando a importância da linguagem enquanto a psicologia acadêmica, fiel a uma tradição grega, exaltou a observação pelo olhar mas nunca recusando também na “escuta” pois que, afinal, esta a forma de comportamento que alcança maior índice de freqüência no ser humano como muito bem resaltou o grande Mowrer em seu discurso ao assumir nos idos de cinqüenta a presidência da Associação Americana de Psicologia.
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