sexta-feira, 14 de maio de 2010

Para Pensar: Questões sobre Psicanálise e Epistemologia

Pessoal,
seguem abaixo as questões referentes à atividade que foi pedida na última aula de Psicanalise (12/05). Na postagem anterior há dois textos de epistemologia que podem ajudar vocês.
Boa Sorte!!!
Abraço!!!!!
=)

01. Comentem a partir dos textos iniciais a respeito da história da psicanálise, o(s) fato(s) que mais tem lhe intrigado. O que você está pensando das idéias iniciais do Freud e do contexto da época acerca da loucura, da sexualidade, o que os textos estão fazendo você pensar, no que concorda, discorda até agora?

02. A partir dos textos sobre epistemologia da psicanálise, em que lugar você situa a teoria psicanalítica: é ciência natual, exata, não é ciência?

Ah!!! quase me esqueço!
Podem pesquisar na internet também
no Scielo tem esses artigos:

http://search.scielo.org/?q=epistemologia%20psicanalise&where=SCL

TEXTOS PARA A ATIVIDADE -- Psicanálise e Epistemologia: Hilton Japiassu e Antônio G.Penna


[...] o relato do sonho não pode ser cortado de sua referência à atualidade psíquica do sonho. É por isso que, ao invés do termo comportamento de relato, talvez fosse preferível e mais correto falarmos de conduta de relato, porque o termo conduta tem a vantagem de realçar a conexão mais ou menos específica com o fato mental. [...] podemos dizer que o estudo psicológico de uma conduta de relato faz a conjunção de duas perspectivas epistemológicas distintas: a) a primeira perspectiva é a da “objetividade exterior”, em principio acessível a todos (como a objetividade do físico: o relato, como porção de linguagem e como texto, está presente; cada um não é somente seu autor, pode tomar conhecimento dele; b) a segunda é da “intersubjetividade”, isto é, a de uma comunicação realizada entre sujeitos dotados de vida mental e capazes de evocar, no outro, algo de seus conteúdos mentais (JAPIASSU, 1982, p. 107).

[...] A objetividade cientifica consiste, do ponto de vista dos sujeitos humanos que fazem a ciência, nessa intersubjetividade, em princípio, universal (admitida e controlada por todos). É justamente a necessidade da intersubjetividade universal que se faz sentir com o esforço de estabelecimento e constituição de um conhecimento cientifico. E é quando conseguimos definir uma identidade de relação intelectual entre todos os sujeitos humanos e o mesmo objeto, que podemos falar de objetividade cientifica. Por conseguinte, essa objetividade coincide necessariamente com a intersubjetividade universal da relação dos sujeitos com o objeto. E é por ser universal, que não podemos deixar de levar em consideração esta intersubjetividade para nos atermos somente ao lado ou ao conteúdo afetivo do objeto. A universalidade da intersubjetividade libera o dado (o conteúdo) de sua “subjetividade” para estabelecê-lo em sua positividade cientifica pela experiência direta de todos. É o que ocorre com a observação de um gesto ou de um comportamento, no sentido behaviorista. (JAPIASSU, 1982, p. 108).

A psicanálise veio mostrar que há outro tipo de intersubjetividade podendo subsistir aquém ou instaurar-se distintamente além desse estatuto universal de intersubjetividade. [...] é preciso que se reconheça que, a partir do momento em que determinado paciente relata seus sonhos ao seu analista, a intersubjetividade que entre ambos se estabelece não é idêntica àquela oriunda da observação feita pelos dois sobre sonho. Na verdade, somente o paciente vivenciou o sonho que ele relata. [...] Trata-se, no caso presente, de uma intersubjetividade particular, e não mais universal. E é este tipo de intersubjetividade que a epistemologia leva em conta para estudar psicologicamente as condutas de relato [...] dito isto, cremos poder chegar a uma primeira conclusão: não se pode mais negar que com Freud, tenha surgido um novo tipo de objetividade psicológica. [...] trata-se de uma objetividade que pressupõe objetividade particular (JAPIASSU, 1982, p. 108-109-111).

JAPIASSU, Hilton. Introdução á epistemologia da psicologia. Rio de Janeiro: Imago, 1982.


Parece encontrar grande aceitação, entre analistas e especialista em teoria psicanalítica, a tese de que a psicanálise nada tem a ver com a psicologia. Seriam tipos de conhecimentos incidindo sobre objetos diferentes e operando com metodologia diversa, diversos, por igual, sendo os fundamentos epistemológicos sobre os quais se apoiariam. Assim, por exemplo, a psicologia reivindicaria a condição de ciência, a condição que, por sua vez, a psicanálise descartaria, optando até por certa aproximação com a filosofia. O objeto da psicologia seria a consciência, agora, mais do que nunca, resgatada até pelos neurocientistas como R. Sperry. Quanto à psicanálise, seus procedimentos de pesquisa se centrariam na investigação do inconsciente. No que se refere à metodologia, a reivindicação da psicologia apontaria para o método experimental, enquanto a psicanálise optaria pelos procedimentos interpretativos. Quanto à fundamentação epistemológica, a psicologia a teria encontrado, predominantemente, no positivismo, com um enraizamento histórico em Hume, enquanto a psicanálise se apoiaria na hermenêutica, representada, inclusive, por P. Ricoeur.
(...)
Ricoeur, em seu texto “Le Conflit des Interpretations”, no capítulo dedicado ao estudo entre a hermenêutica e a psicanálise, afirma que, graças a Marx, Nietzsche e Freud, alargou o significado da dúvida que, em Descartes, era exercida com bastante eficácia  em relação à própria consciência. Afinal, como observou Descartes, se eu duvido, eu penso, eu penso, e se eu penso, então existo. A existência, então, da consciência, ficava assegurada, em oposição à do mundo físico que, na verdade, se poderia revelar ilusória. Em função de sua transparência, por outro lado, a consciência poderia oferecer-se em condições privilegiadas para estudo. Pois, o que os três grandes mestre da suspeita fizeram foi mostrar que a consciência de modo algum escapa da dúvida. Também o conhecimento de que ela propicia dela mesma pode ser inteiramente falso. O recurso para o desmascaramento seria a reflexão crítica, graças à qual rejeita-se o que se propõe como evidência factual em favor do que se oculta, este possivelmente até insinuando pelo que se mostra. Bem examinado, o procedimento não era estranho aos que se propuseram em investigar o mundo físico. Também aqui, o que se descobriu foi o caráter falso do dado, impondo-se como melhor estratégia a busca do que se encobre. Talvez no processamento dessa mudança, a experiência dos fenômenos ilusórios tenha desempenhado papel relevante. A hipótese que proponho, sobretudo, privilegia a ilusão do movimento induzido que terá incentivado a passagem da concepção geocêntrica para a concepção heliocêntrica. Efetivamente, na ilusão mencionada, o que se percebe em movimento, revela-se destituído dele, enquanto o que se percebe em repouso mostra-se em movimento. A concepção geocêntrica teria sido produzida pela aceitação do dado ilusório, ou seja, o sol girando em torno da Terra. A dúvida sugerida pela experiência ilusória teria, então, conduzido à concepção oposta.
(...)
Pessoalmente creio que os trechos citados, de modo algum, excluem a mobilização do método de observação. Claro que o inconsciente não se apresenta diante de nós como se revela um fenômeno. De qualquer modo, as lacunas, as brechas, essa são observadas. E isso quer me parecer de extrema relevância para efeito de se conhecer o inconsciente. Como nesse  particular assinala muito bem Narot, o trabalho essencial é o de escuta. Descarta-se qualquer contato físico, tanto quanto se exclui qualquer preocupação com a expressão gestual do analisando. “E por princípio: a transformação freudiana institui a exclusão do visível comportamental (ao qual a psiquiatria, a psicologia, a psicossociologia permaneciam ligadas) em favor do invisível, do fantasma  e da palavra.” Tudo isso, entretanto, não implica redução da observação. Nesse sentido, então, não se mostra a psicanálise radicalmente afastada da psicologia. Quando muito se poderia dizer que a psicanálise privilegia um tipo de observação que se fundamenta na “escuta”, conseqüentemente ressaltando a importância da linguagem enquanto a psicologia acadêmica, fiel a uma tradição grega, exaltou a observação pelo olhar mas nunca recusando também na “escuta” pois que, afinal, esta a forma de comportamento que alcança maior índice de freqüência no ser humano como muito bem resaltou o grande Mowrer em seu discurso ao assumir nos idos de cinqüenta a presidência da Associação Americana de Psicologia.

PENNA, Antônio Gomes. Psicanálise e Psicologia. Freud, as ciências humanas e a filosofia. Rio de Janeiro: Imago, 1994

terça-feira, 11 de maio de 2010


"Seduziste-me, Senhor; e me deixei seduzir! Dirás então ao povo: Oráculo do Senhor: Eis que vos coloco na encruzilhada dos caminhos da vida e da morte."

JEREMIAS 20,7; 21,8


Começo com essa frase bíblica, o que por si só traz para mim cem anos de pecados e azar de mil espelhos quebrados, pois esta Mulher que homenageio aqui já nasceu com as marcas indeléveis da sexualidade, do prazer, da perversão e do sadismo. Uma mulher, de corpo tão pecaminoso (e irresistivelmente sedutor) já nasceu automaticamente excomungadada seja da ciência, seja da religião. Mas não é culpa dela, afinal, a psicanálise, não tem Deus no coração porque não tem coração para colocar Deus.

A psicanálise não se adéqua, já nasceu como uma peça sem encaixe feia, suja e só. Aliás, só não! Afinal, a Psicanálise foi ninada por muitas mães, a filosofia, as artes, a literatura, e é feita por pedaços de todas elas, como um monstro. Frankstein, ameaçado pelo grande pai, a neurologia, esta foracluída já em um Édipo precoce à moda Klein.

A psicanálise não se identifica com o pai, se identifica com a mãe, é castrada, é faltosa, pertence aos melindres do feminino. Sedutora, forte, perigosa, nossa mulher balzaquiana, contudo não é um humano, é um monstro feito de pedaços da mãe. A psicanálise, assim, não pode ter uma estrutura psicótica, ao contrário, parece ser uma neurótica, pois muitas vezes a flagro perguntando sobre aquele quem somos e aquela quem é. Outras vezes, deparo com uma psicanálise perversa que brinca com o nosso desejo de saber quem somos e saber do Outro, desse grande Outro, responsável pelos grandes dramas humanos. Afinal, o que quer a psicanálise? Quer nos dividir? Quer nos responder? A psicanálise explica? Explica o quê?

A Psicanálise não teve Édipo nem "é" Édipo. O Édipo somos nós. A psicanálise é Esfinge, que pergunta: Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?

Talvez o nosso Édipo tenha respondido, mas nunca vencemos a Esfinge, esta Esfinge que se fingiu vencer para, mais na frente, fornecer-nos enigmas indecifráveis. Indecifráveis para nós, alunos, estudantes de psicanálise, investigadores da Esfinge. Nós, que não nos damos por satisfeitos apenas em dar um nome ao bicho, não, essa pergunta já foi há muito respondida no começo de nossa caminhada enquanto humanos. A Esfinge agora nos lança um novo enigma, agora, quer que respondamos sobre a criança que carregamos conosco e que tem quatro pernas mesmo quando temos apenas três. Essa criança, a nossa grande falta interior.

Se a esfinge pergunta a todo minuto pela criança, nós perguntamos pelo Desejo, sempre pelo desejo de outra coisa, perguntamos sobre a falta, falta de quê? Aí depende. Falta-me, agora, respostas. A Falta, grande buraco feito no meio do Tudo e do qual nossa existência é sua medida exata.

Que considerações fazer sobre tantos buracos? Terríveis no asfalto, imprescindíveis a nossa existência!